Crítica: AS AVENTURAS DE PEABODY & SHERMAN

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Após ver AS AVENTURAS DE PEABODY & SHERMAN, um pensamento me veio à mente: a Dreamworks Animation acha que as crianças de hoje em dia são tão hiperativas que não conseguem ficar parada por uma hora e meia para ver um filme? Para que isso aconteça, precisam fazer um filme que não consegue parar por alguns segundos para mostrar com calma o que está acontecendo?

Criados pelo cartunista Ted Key, o cão Peabody e o menino Sherman apareceram pela primeira vez no segmento Mr. Peabody Improbable Stories, que passava durante as séries animadas The Rocky and His Friends e The Bullwinkle Show – aqui no Brasil conhecido como As Aventuras de Alceu e Dentinho, criação de Jay Ward e Alex Anderson.

No filme da Dreamworks Animation, conhecemos a mente mais brilhante de todos os tempos, o cão Peabody (o ator Alexandre Borges, em uma performance muito competente), o melhor em tudo o que faz – ganhador de várias medalhas olímpicas, um Nobel da Paz, um grande cozinheiro e inventor da dança Zumba – inclusive em criar o seu filho adotivo, o garotinho Sherman. Ou assim ele achava: quando Sherman, em seu primeiro dia de aula, entra em uma confusão com a garotinha Penny, Peabody é questionado pela preconceituosa Srta. Grunion, funcionária do serviço de Proteção à Infância que não aceita ver um humano sob a tutela de um cachorro, e que vai fazer de tudo para tirar Sherman de Peabody.

Para tentar resolver o problema, o cão gênio convida os pais de Penny e a garotinha para um jantar em sua cobertura. Enquanto Peabody tenta convencer os pais da menina de que tudo não passou apenas de uma grande confusão, Sherman acaba mostrando à Penny a Volta-Atrás, uma máquina do tempo que Peabody construiu (eu não disse que o cão era um gênio?) para educar o garotinho, e aí as coisas saem do controle.

É impossível não se apaixonar por Peabody. Sua história, de um filhotinho que ninguém queria adotar pois ele era diferente, até decidir dedicar a ser muito bom em tudo, é sensacional. O melhor é que tudo isso não o transformou em um pessoa (cão?) esnobe: Peabody é charmoso, carismático… no que Peabody não é bom?

E até mesmo Sherman, que eu achei que seria apenas uma espécie de comic relief, isto é, o burrinho da dupla, na verdade é uma criança inteligente e alegre. Quando ele parece estúpido, você nota que ele está apenas sendo uma criança, o que o deixa ainda mais simpático.

Então por quê essa necessidade de querer fazer o filme para crianças com déficit de atenção? Como se cada sequência precisasse ser muito maior do que necessário e não perder tempo, pois a criança poderia perder o interesse e ir para o celular ou fazer outra coisa? Pois é exatamente o que acontece quando Peabody, Sherman e Penny saem viajando com a máquina do tempo: não há tempo para respirarmos entre uma cena e outra. A direção de Rob Minkoff (diretor de O REI LEÃO) e o roteiro de Craig Wright (que já escreveu episódios de LOST e A SETE PALMOS) ficam tão preocupados em pular de uma sequência para outra, de uma piada a outra, que ótimos momentos que poderiam ter deixado os personagens ainda mais densos, e cenas ainda mais divertidas, passam completamente batidos. Penny passa de vilã a interesse amoroso num piscar de olhos; algumas cenas mais dramáticas acabam passando em branco, pois é preciso viajar para outra época para fazer uma nova piada…

Acabei me lembrando da sequência inicial de 007: QUANTUM OF SOLACE, onde a edição é tão nervosa, que chega a dar dor de cabeça: na gana de passar uma sensação de velocidade e tensão, os cortes são tão rápidos, e as imagens ficam tão pouco tempo na tela, que você mal entende o que está acontecendo. Agora imagine isso durante mais da metade do filme.

Mas o filme não é tão ruim quanto parece. Vale dar crédito onde é devido: o character design, a modelagem e a animação dos personagens estão impecáveis, um ótimo trabalho. O carisma de Peabody e Sherman seguram a trama com boas piadas e gags visuais. Os coadjuvantes também são bons e conseguem arrancar boas risadas. E confesso que pagaria para ver uma continuação com essa dupla e suas desventuras através do tempo, mas apenas se forem contadas com mais cuidado e carinho, para que eu possa não apenas curtir ainda mais o passeio como me importar com o que está acontecendo.

Só que essa possibilidade hoje é bem remota: no fim de semana de estréia, AS AVENTURAS DE PEABODY & SHERMAN faturou nas bilheterias norte-americanas apenas 32 milhões e 500 mil dólares, o terceiro filme seguido da Dreamworks Animation que ficou abaixo do esperado – os anteriores foram A ORIGEM DOS GUARDIÕES e TURBO. O impacto até causou queda de 1,4% no valor das ações da empresa.

Como a Dreamworks Animation gostaria de ter uma máquina do tempo agora…

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